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| Os papa-jacas de Cruz das Almas no terceiro encontro |
Por
Walmir
Rosário*
Psicologicamente
estou arrasado, abalado ou tantos sinônimos existam para classificar meu estado
depressivo. E tudo começou na manhã desta segunda-feira (9), durante o café-da
manhã, quando, inadvertidamente, passei a olhar o noticiário no celular. Senti
uma punhalada, peixeirada, um golpe profundo no peito. Minhas vistas
escureceram, fiquei sem ação por vários minutos.
Foi
preciso ser chamado à atenção por minha mulher para saber o que se passava. Ainda
sem me recuperar do tremendo golpe, apontei o celular pra ela e disse: “Leia,
veja as fotos”. Parecia o fim do mundo. Logo no título estava estampado:
ECOJACA 2026 É SUCESSO E ATRAI VISITANTES DE VÁRIAS CIDADES. A foto estampava
mesas cercadas por multidões comendo jacas em fartura. Só que não em Itabuna e
sim em Cruz das Almas, no dia anterior.
Há
quase dois anos que me preparo para um evento deste tipo em Itabuna, cidade
tida e havida como a capital da jaca, inclusive com direito a menções e
referências nos livros do conterrâneo Jorge Amado. Mas a questão não parava por
aí, e a rivalidade entre as cidades de Itabuna e Ilhéus, dão prova real desta
hostilidade, em que se intitulam Papa-jacas e Papa-caranguejos,
respectivamente.
De
minha parte contribuí para manter a tradição e até escrevinhei uma crônica
sobre o tema “Guerra e Paz entre papa-jacas e papa-caranguejos”, numa referência
ao tema, sempre em voga entre itabunenses e ilheenses, uma tradição de mais de
século. O que antes parecia uma pretensa ofensa moral se transformou em
gentílico. Tempos de paz!
O publicitário
itabunense Afonso Dantas foi bastante perspicaz ao criar camisas com os temas
papa-jaca e papa-caranguejo, que passei a usá-las com todo o garbo, aguardando
apenas e tão somente uma oportunidade deste tipo da realizada em Cruz das Almas
para exibi-las solenemente. Enquanto o evento não era programado eu apenas desfilava.
Afonso Dantas criou camisas para os papa-jacas de Itabuna
Lembro,
ainda, de Pinguim e Bel, lá pras bandas do Bar de Leto, no bairro da Conceição;
eu e Cláudio da Luz no Beco do Fuxico fazendo as honras da casa. Em vão. Além
de exibir as camisas, por aqui me contento com as jacas moles e duras compradas
nas feiras-livres, às quais me dou ao luxo de degustá-las solenemente a partir
do café-da-manhã.
Admito
que não esteja a chorar o leite derramado, mas me sinto acabrunhado enquanto
via as fotos e lia o texto oficial ressaltando com louvor o sucesso do evento,
haja vista o grande número de cruz-almenses e visitantes. Eles degustavam com a
satisfação estampada nos olhos, aliada à gulodice das desejadas jacas, desde o
seu estado in natura até nas receitas
culinárias.
Mesas
lotadas de pratos com tira-gostos dos mais diversos, doces e salgados, todos
elaborados a partir da jaca. Bala, cocada, pudim, brigadeiro, trufa, sorvete,
suco, pastel, coxinha, quibe, passando pelos pratos salgados e de sustança para
qualquer cidadão. Pense aí no vatapá, feijoada, moqueca de camarão, todos esses
pratos tendo a jaca como elemento principal, estrela.
Pelo
que li, uma competição chamou a atenção de muitos participantes, que comiam
jacas com bastante gulodice – como requeria a ocasião e o estômago de cada um
deles – para vencer a gostosa peleja. Ainda fui informado que somente um filho
de Deus comeu mais de dois quilos de jaca – sem os caroços, é claro – e ainda
foi beliscar nas mesas de culinária.
Confesso
minha falta de conhecimento em relação a Cruz das Almas e ao povo cruz-almense sobre
esse gosto especial por jaca, mas tenho cá minhas intuições. Acredito que a
popularização da jaca nesta cidade do Recôncavo tenha sido obra dos estudantes
de agronomia de Itabuna e cidades circunvizinhas nos anos em que por lá
permaneceram, o que se justifica.
Entretanto,
não consigo compreender como o itabunense consegue perder a primazia de se
consolidar como um autêntico papa-jaca, fruta abundante em nossa Mata Atlântica,
embora seja uma árvore alienígena, forasteira adaptada e aclimatada entre nós.
Originária da Índia, a jaqueira – Artocarpus
heterophyllus – é rica em fibras,
vitaminas e minerais, e versátil na culinária.
Bem
que o poder público municipal e as instituições que representam o empreendedorismo
de Itabuna poderiam considerar a importância da jaca na história da cidade e decidam
promover evento de tal porte por essas bandas. Nada melhor para consolidar o
itabunense como um autêntico Papa-jaca – de fato e de direito – e permitir a
oportunidade de trajarmos nossas camisas em tão solene efeméride, recuperando
nossa autoestima.
*Radialista,
jornalista e advogado.

Não sabia da sua paixão por jaca,Walmir. Agora que sei, vou lhe presentear com uma colhida na jaqueira do meu sítio.
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