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| Comportados, os confrades aguardam o pièce de résistance |
Há quem pense que a Confraria
d’O Berimbau – em Canavieiras – seria uma esbórnia na qual os velhinhos ligados
aos comes e bebes dos sábados não obedecessem régios regulamentos. Em muitos
deles cláusulas pétreas permitiam e proibiam determinados comportamentos, e ai
de quem não os obedecessem para serem submetidos aos rigores da lei.
No linguajar do então jornalista
desocupado Tyrone Perrucho, esses rigores eram mais que necessários para que os
velhinhos não se achassem acima da lei e da ordem. Sua maior preocupação era o “encavalamento”
dos tira-gostos, vocábulo este que significaria comida em excesso, sem
controle, desalinhados ou sobrepostos, e que não conseguiriam ser comidos pelos
confrades glutões.
E a preocupação era tanta que
o Secretário Plenipotenciário foi instado a baixar um Decreto-Lei para
regulamentar a questão, estabelecendo os dias em que cada um dos confrades se
encarregavam de levar o antepasto e o prato principal. Caso um dos confrades
infringisse o diploma legal poderia ser enquadrado nos rigores do Decreto-Lei.
A cada sábado um dos velhinhos
se obrigava a fornecer a comilança, sendo agraciado do regalo de não ter que
assumir sua parte na obrigação do pagamento das cervejas consumidas. Era uma
espécie de 0800 etílico. Outro rigor legal da Confraria d’O Berimbau era lançar
olhares especiais sobre frequentadores esporádicos e uns poucos habituais
conhecidos por sua distração em deixar o recinto sem o desembolso da obrigação
pecuniária.
Os conhecidos “serrotes”,
portadores de amnésia temporárias de que teriam que passar no caixa e adimplir
o consumo, eram prontamente levados à exposição pública com direito a ter o
nome estampado no quadro de aviso numa cartolina, devidamente escrito com
pincel atômico. Sem qualquer constrangimento, na semana seguinte procurava o
financeiro e fazia o desembolso.
Painel de publicação das leis da Confraria
Outros problemas considerados
de pequena monta sequer eram levados em consideração e eram alvos apenas nas
conversas de balcão. De quando em vez ganhava as ruas, e sequer alcançavam o
status de fake news. Já os responsáveis pela comilança semanal tinham a obrigação
e o sagrado dever de abastecer as mesas com uma refeição, quando não pomposa,
ao menos suficiente.
Tempos depois, a Confraria d’O
Berimbau ganha requintes com a presença de um fogão para a confecção de
refeições grandiosas e requintadas, devido à presença de convidados. A cozinha
foi inaugurada com toda a pompa, com a presença dos doadores, os visitantes
José Augusto Ferreira Filho e Gilson Pereira, Nelson Barbosa Lopes, além de outros
convidados itabunenses.
Para tanto, um cardápio pra
lá de especial, com pratos de reconhecida importância e aceitação dos
confrades, notáveis especialistas na arte de degustar comidas de sustança. De
entrada, amendoins confeitados, pipocas doces e salgadas, balinhas de goma,
previamente escolhidas por Tyrone Perrucho nas mais importantes bombonieres da
cidade.
A
comida quente se destacava com dois pratos especiais, preparados in loco: na entrada, uma deliciosa
farofa de calabresa, devidamente adubada com bacon, cebola roxa, alho dourado,
coentro e cebolinha. Os convidados não demonstraram qualquer cerimônia para
comê-la sorvendo generosos goles de cerveja e aguardente de Salinas
providenciado pelo confrade Raimundo Tedesco.
Enquanto
isso um novo prato foi iniciado por este escriba – responsável pela cozinha d’O
Berimbau –, com todos os requintes, temperos e proteínas da melhor qualidade,
obedecendo o ritual dos sertões de Goiás, onde nasceu, cresceu e espalhou. Sim,
era o famoso Arroz de Puta Rica, com uma variedade de ingredientes de qualidade
para justificar a adjetivo de opulência.
Eu e Zé do Gás levando à mesa
o Arroz de Puta Rica
Para
ser sincero, nada que precisasse ser importando da Europa ou do Oriente Médio.
O arroz de marca reconhecida do Sul do País, que aguardava pacientemente que eu
fritasse as costelas e lombos suínos devidamente salgados, as coxinhas da asa
de frango, a jabá e a conhecida linguiça calabresa. Assim que foi estabelecido o ponto ideal de
fritura, posteriormente incorporei o arroz e deixei cozinhando até o ponto de
cocção.
Como
tudo que é novidade deixa uma certa dúvida nas pessoas, alguns confrades
olhavam de soslaio para as providências culinárias realizadas ao redor com
certa desconfiança. Entretanto, assim que o Arroz de Puta Rica, o pièce de résistance – ou prato principal
–, se encontrava pronto e acabado, apaguei o fogo e solicitei a providencial
ajuda do confrade Zé do Gás para transportar a panela à mesa.
Em
pouco tempo, devidamente provado e aprovado.
*Radialista,
jornalista e advogado.

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