![]() |
| Mário Queiroz, clicado por Walmir Rosário em 2010 |
Por Walmir
Rosário*
Conheci Mário Queiroz
ainda na adolescência, quando deixou sua terra, Itajuípe, e veio residir em
Itabuna, isso, ainda, no século passado, lá pela década de 1960. Era um rapaz
comportado e que gostava da vida com todas as bonanças daquela época. Muitas
amizades e um sonho: Se mudar para o Rio de Janeiro e se tornar paraquedista do
Exército. Sem medo de voar alto.
E assim fez, cumpriu o famoso
dever cívico do serviço militar e um belo dia volta a Itabuna, quem sabe para
viver como um ser normal, com os pés nesta terra. Pessoa de fazer muitos
amigos, passou a se corresponder com gente do mundo inteiro, dos Estados Unidos
ao Uruguai, da Inglaterra à Austrália, uma “mania” muito comum àquela época.
Mário ibrava com o aumento da
amizade internacional e as imagens dos selos, muitos deles de grande valor
financeiro. De pronto transformou a filatelia no seu hobby predileto. Rapaz de
boa família – como se dizia naqueles tempos –, levava uma vida normal, convivendo
com os amigos, desfilando no “jardim da prefeitura” (praça Olinto Leone),
frequentando os clubes.
Suas lembranças da vida no
Rio de Janeiro o levaram a pregar transformações em Itabuna, a terra do cacau, na
época em que o dinheiro não era problema. Para ele, Itabuna tinha espaço para
tudo. E o seu primeiro empreendimento foi um bar no estilo carioca, com boas
marcas de cerveja e um sortimento de “cair o queixo” de bebidas quentes
importadas, no jeito do paladar do Grapiúna.
Não consigo lembrar o nome dado por Mário ao
bar e recorri ao amigo de tempos pretéritos, o colega advogado e confrade do
Alto Beco do Fuxico, Pedro Carlos (Pepê), cliente assíduo ao lado do engenheiro
Dagoberto Brandão. Pepê lembrou apenas do apelido de Mário, Pinduca, e da
seleta clientela, que reunia a nata da política e conviviam de forma
respeitosa, brindando a vida.
Mas aquela não era a carreira
que Mário Queiróz queria para o resto de sua vida. Como sempre pretendeu ser um
homem livre, resolveu voar mais alto, agora bem diferente de quando saltava dos
aviões no tempo do paraquedismo. O mundo mudava a cada minuto com filósofos e
idealistas pregando a liberdade do homem, sem limites, e na qual a lei seria apenas
a de ser feliz.
O ainda Mário de Queiroz já
se tornara amigo da fotografia e fazia experiências com algumas máquinas e conversas
com o fotógrafo e antigo dançarino e sapateador Newton Maxwel. Era apenas o que
faltava para ver o mundo por outras lentes. Em Itabuna a cultura corria solta e
todas as experiências eram válidas, de acordo com a cabeça e o pensamento de
cada artista iniciante.
Mário Queiróz se muda para
Salvador e na capital soteropolitana encontra os amigos e mentores para sua
nova arte: a imagem, agora de na forma artística, como costumava ver nas
revistas internacionais. Trabalhou nos jornais da capital e iniciou sua vida de
liberdade total, como pregava o famoso Festival de Woodstock. Daí ganha novo
nome: Mário Bandeira, por pregar um mundo sem limites.
Com o sucesso da banda Novos
Baianos, viveu uma boa temporada com eles, fotografando-os e comercializando
apresentações musicais e jogos de futebol com times das cidades por onde
passavam. Em Itabuna, Mário Queiróz conseguiu com seu amigo Reinaldo Sepúlveda
que o grupo passasse um bom tempo em sua fazenda de cacau, experiência ímpar.
De volta a Itabuna fotografou
à vontade, expôs seus trabalhos, fez sucesso. Ao lado das fotos artísticas, mil
encomendas para revistas e jornais. Com o boom de Porto Seguro, Mário Queiróz (ou Bandeira) se muda de mala e cuia para a terra do Descobrimento,
conhece gente de todas as partes do mundo e viveu nababescamente, por vezes,
outras nem tanto.
![]() |
| Walmir Rosário e Mário Queiróz em 1993, no carnaval de Canavieiras, na foto de Alberto Coutinho |
Tive o prazer de trabalhar com Mário (ou Pinduca) nas encomendas de cadernos especiais e revistas, muitas para jornais como O Globo (Maria José, Waldomiro...), Correio da Bahia, jornais A Região, Agora, e diversas revistas. Cada um desses trabalhos era festejado pelo público diante da riqueza das fotos e informações. Considero um fotógrafo e retratista por excelência.
Antes de cada viagem eu fazia
uma preleção que Mário ouvia atentamente, sem esboçar a mínima reação. Eu falava
sobre meus costumes, muitos em confronto com os dele, que não abria mão dos
seus “digestivos”, proibidos na mala do meu carro ou da empresa. Quando muito
dava uma risadinha sonsa, pois sabia que assim que chegássemos em no destino
estaria em casa de amigos.
Apesar da vida desregrada que
levava, Mário não se descuidava do físico, e fazia questão do corpo musculoso, resultado
das caminhadas para manter a forma atlética. Certa feita, em Canavieiras
trabalhávamos um caderno especial sobre a cidade, e bem perto de nós explode um
tiroteio. Peço a Mário que o registrasse, pois faria uma matéria para o jornal.
Ao enfrentar uma realidade diferente começou a tremer e não saiu uma só foto.
Na década de 1990 resolve
deixar Porto Seguro e volta a Itabuna. Completamente magro, ao ser observado
por um amigo, ia logo dizendo: “Estou com Aids, pode espalhar que é para ninguém
vir me pedir dinheiro emprestado”. Em Porto Seguro se sentia no paraíso e
experimentou a fotografia junto a profissionais do mundo inteiro, com trabalhos
relevantes.
Em toda minha vida nunca
convivi com uma pessoa desapegada do tipo de Mário Queiróz. Enquanto fazíamos um
jornal para a Prefeitura de Itajuípe, sua terra natal, olhou para o triste e
combalido rio Almada, cujas águas deslizavam mansamente, tendo ao seu lado o
colorido dos fundos do casario. Ele via uma réplica das cidades italianas na
costa Mediterrânea. Não perdeu tempo e exclamou! “Estou vendo o sucesso desta
imagem na primeira página”.
O seu desprendimento com as
coisas materiais incomodava mais os amigos do que ele, que sempre pensava no
que de bom poderia vir. Sem as potentes máquinas fotográficas do passado, o
surrado aparelho celular era a sua “arma de guerra”, com o qual produzia
imagens maravilhosas e retratos irretocáveis. Mário Queiróz (Bandeira, Pinduca),
nos deixou aos 83 anos, com problemas cardiovasculares, no dia 10 de outubro de
2026, após viver intensamente.
*Radialista,
jornalista e advogado


A memória traz uma saudade que não tem idade. Beleza CATIGURIA
ResponderExcluir