WALDYR GOMES, O GUARDIÃO DAS IMAGENS DE ITABUNA

 

Waldyr Gomes, uma das revelações da fotografia de Itabuna

Por Walmir Rosário*

Uma bela atitude da Escola Lua Nova, no bairro da Conceição, para homenagear importantes personagens que contribuíram para a história e o desenvolvimento de Itabuna. Infelizmente, muitas dessas figuras são esquecidas ao longo do tempo, pela ausência física ou intelectual, e deixam de ser registradas na história, pois nossa educação formal não contempla a própria história do município, integradas pelos nossos conterrâneos.

Porém o trabalho pedia mais: apresentar duas fotos de um mesmo local, sendo uma antiga e outra atual, descrevendo as mudanças através do tempo. Solicitava, ainda, uma foto de qualquer paisagem de Itabuna, nominando o local e o que ele representa para a cidade. Por último, pesquisar e apresentar a biografia de um fotógrafo importante para a cidade.

Liz exibe a arte de uma
câmera fotográfica 

Uma das protagonistas de reviver um destes personagens foi Liz, minha neta, aluna do 2º ano, interessada pelo trabalho de um repórter-fotográfico que contribuiu com história de Itabuna, tornando-se parte dela. E seu pai, João Rosário, hoje educador físico, contou as histórias do fotógrafo, dos tempos em que trabalhou na redação/arte do jornal Agora. Esta é a figura de Waldyr Gomes, que clicou as mais diversas máquinas, revelou e copiou milhares de fotos, quase todas publicadas em jornais, revistas e canais digitais, ou simplesmente guardadas em casa.

E Waldyr Gomes é um daqueles personagens verdadeiramente itabunenses, aquele que não nasceu aqui, mas se tornou um verdadeiro Grapiúna, um itabunense por opção. Nascido em Itapetinga, ainda jovem desembarcou em Itabuna para aprender a profissão de fotógrafo com seu tio José Antônio, que acumulava anos no batente, com grande experiência na área.

E Waldyr Gomes é um daqueles seres humanos bafejado pela sorte, pois ao seguir o tio José Antônio, fotógrafo da Prefeitura de Itabuna, também encontrou outro grande professor, o renomado fotógrafo Sabino Primitivo Cerqueira. Aos mais novos cabe o aviso de que àquela época não existiam as máquinas digitais – como atualmente – que bastam um click e pronto.

Como se diz, a parada é mais embaixo, e naqueles tempos o click era apenas a primeira e pequena parte da arte de fotografar. Como as fotos eram impressas num rolo “plástico”, precisava ir ao laboratório para ser retirado da máquina em local escuro e passar por um processo químico de revelação e, em seguida, copiado em papel especial de fotografia.

E Waldyr Gomes passou por todo esse aprendizado para se tornar um fotógrafo. Curioso como só ele, perguntava sobre abertura de luz, química e os efeitos do posicionamento e distância do profissional em relação ao fotografado. E, aos poucos, ele se encontrou em relação ao olhar pelo visor da máquina e o objeto a ser retratado.

Eu (Walmir) conheci Waldyr Gomes no início da década de 1980, assim que chegou em Itabuna e tivemos a oportunidade de trabalhar juntos, na Prefeitura local por várias vezes, e em jornais. Numa cobertura de um protesto dos cacauicultores, na BR-101, em busca do melhor ângulo, foi atropelado por uma carreta e passou muito tempo fora da atividade.

Neste incidente, pelo nome parecido, muitos funcionários da Prefeitura pensaram que tivesse sido eu o acidentado. Isto porque no dia seguinte viajei e passei uma semana fora. Quando da minha chegada ao Paço Municipal, as pessoas me olhavam de forma estranha, me inquerindo como se eu tivesse o poder de ressuscitar. Esclarecido, algum tempo depois estávamos juntos.

Waldyr Gomes trabalhou também para o jornal A Tarde, embora quase todo o seu tempo dedicou suas atividades profissionais no jornal Agora e na Prefeitura de Itabuna. Mais que um chefiado, eu tinha ao meu lado um parceiro para todas as horas. Numa época em que deixei de escrever e editar o caderno Agora Rural, Waldyr Gomes resolveu se despedir da publicação, regressando comigo, anos após.

No jornal Agora, Waldyr teve a primazia de ser o primeiro fotógrafo profissional de Itabuna a trabalhar com uma máquina digital, daquelas que utilizava um disquete com capacidade de apena 1,4 MB, no formato de 3,5 polegadas. Sempre que o jornal Agora ou a Prefeitura de Itabuna (onde trabalhávamos juntos) compravam uma máquina digital era Waldyr quem as estreava.

E Waldyr estudava as fotos dos fotógrafos mais antigos de Itabuna, a exemplo de Alemão, Émerson, Newton Maxwel, Armando Mendes, dentre outros para comparar os ângulos e os efeitos na foto. Sempre que saíamos para uma reportagem, me perguntava: qual é a pauta? Reportagem pronta, mostrava a quantidade e qualidade das fotos que fizera.

Uma das grandes dificuldades dos fotógrafos é a produção de fotos numa roça de cacau, dada a profusão de incidência de luz solar e sombras que penetram nas falhas existentes na folhagem. E ele tinha verdadeira obsessão pelas fotos coloridas ou em P&B, feitas por Sebastião, Sabino Primitivo e Isaías – pertencentes ao acervo da Ceplac.

Após alguns problemas de saúde Waldyr, estrategicamente, se retira do mundo da fotografia e cria um blog: costadocacau.blog.br que publica notícia regionais. E o interesse de Liz sobre Waldyr Gomes tornou possível revelar para os mais novos o acervo dos trabalhos, muitos na rede de internet retratando Itabuna de corpo inteiro, em fotos aéreas, ou sobre prédios, e que mostram a evolução da cidade, de forma individual.

Uma história curiosa sobre Waldyr Gomes é que ele também fotografava para a Polícia Técnica pessoas falecidas, de acidentes ou de detidos. Nestas, na identificação aparecia o nome “Foto Kabuloso” e não o seu verdadeiro nome. Sobre o Waldyr Gomes, “gente”, dá para escrever dezenas de crônicas, principalmente como o churrasqueiro do jornal Agora, nos fechamentos das grandes edições das sextas-feiras.

*Radialista, jornalista e advogado.


Comentários

  1. É um guerreiro que precisa ser mais reconhecido. Atenção FICC!!! Cultura, não é só festas! Mas,imortalizar nossa historia, através dos nomes, como Waldyr, que amam Itabuna e por ela contribuiu com o seu desenvolvimento. "Sou do analógico para o digital". Vamos editar um livro sobre a rica biografia desse grande profissional. Fica ai, o recado.

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  2. Tive a oportunidade de conhecer e utilizar do seu excelente trabalho na minha monografia de conclusao de Graduação em 2018.

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