![]() |
| Tyrone Perrucho prova novo óculos (foto -Júnior Trajano) |
Por
Walmir
Rosário*
Na sede da Ceplac, na rodovia Ilhéus – Itabuna, Tyrone – ou melhor, Perrucho – era um “boa praça”, sempre disposto a contar uma boa piada, ou simplesmente produzir situações inusitadas, sempre de forma discreta, disfarçada ou dissimulada. Nada que comprometesse ou que tivesse a intenção de prejudicar um colega, e sim a finalidade de alegrar o ambiente. E não foram poucas as vezes em que arquitetou boas safadezas, no bom sentido.
Certa feita, um
ceplaqueano se apaixonou pelas novelas da Globo e iniciou a produção de várias,
enviando os roteiros para o departamento da Vênus Platinada. Grandes pacotes
com as sinopses eram postados nos Correios à vista de todos. Entretanto, não
chegava uma simples resposta, nenhuma avaliação, um pedido de mudança, ou que
parasse de mandá-las por falta de interesse da emissora.
E esse tratamento
indelicado, beirando ao desprezo, começou a afetar o pretenso famoso novelista
da Global, que passou a sofrer com a solidão que sentia em seu mundo intelectual.
Centenas de páginas eram enviadas, e mesmo com o custo elevado cobrado pelos
Correios, e nenhuma reposta. E isso passou a afetar o trabalho do colega, que
foi diagnosticado como depressivo.
Certo dia, sem
qualquer aviso-prévio, eis que chega um envelope postado no Rio de Janeiro e
entregue pelos Correios ao nosso promissor autor de novelas, tendo como
remetente o Departamento de Novelas da Rede Globo. Nosso colega escritor quase
morre de emoção e, com as mãos trêmulas, abre o envelope, e não acredita no que
vê: uma correspondência analisando, meticulosamente, sua última obra.
E mais, muitos
elogios pelos trabalhos enviados e os pedidos de desculpas diante da demora do
contato, culpa da monumental quantidade de sinopses recebida diariamente e que
levavam tempo na análise. Sim, eles eram criteriosos e cada proposta era lida
por três profissionais gabaritados, o que levava muito tempo na observação. Mas
teria valido a pena, pensou, e já se via fazendo parte da galeria de brilhantes
intelectuais televisivos brasileiros.
Em tempo,
finalmente, o sucesso tinha chegado. Agora, bastava arregaçar as mangas, pedir
a antecipação das férias vencidas à Ceplac e estender noites a dentro para
fazer uma criteriosa revisão, conforme solicitavam os dirigentes da Globo. Após
longos 45 dias de trabalho, nosso colega novelista envia um novo pacote pelos
Correios, com as recomendações de rapidez, pagando uma verba extra ao novo
serviço lançado: o Sedex.
Agora era só
aguardar a aprovação. Planos para o futuro davam voltas com a rapidez de um
avião supersônico em seu cérebro. Em determinados momentos pensava solicitar
uma licença sem vencimentos à Ceplac, quem sabe se desligar de vez, pois sabia
que não daria conta dos afazeres na instituição e na Rede Globo. Teria que
chefiar um grupo de redatores para dar conta da nova novela global.
Enquanto imaginava
o sucesso de sua obra em todo o Brasil e, quem sabe, no exterior, chegou a
consultar amigos e chefes sobre a possibilidade de sua saída da Ceplac, seus
novos planos, mas tudo com muito cuidado. E como o tempo não para, nosso colega
começa a se impacientar com a demora da contratação. Três meses e nenhuma
correspondência, nenhum contato, sequer as informações pessoais para o envio da
passagem aérea para o Rio de Janeiro.
Mas como nesse
mundo de meu Deus nada fica permanentemente em segredo, algumas pessoas tomam
conhecimento que as correspondências da Rede Globo, apesar do carimbo de
postagem do Rio de Janeiro, teria sido realizada em Itabuna, parte dela na sede
regional da Ceplac. Mas como explicar o carimbo dos Correios numa agência de
uma das grandes avenidas do centro do Rio de Janeiro?
Amarrando as
pontas, os colegas chegaram à conclusão de que tudo não passava de uma singela
brincadeira de Perrucho (Tyrone), que teria resolvido dar um empurrãozinho no
sentido de recuperar a autoestima do colega ceplaqueano. Aproveitando a viagem
de outro colega ao escritório de compras da Ceplac, no Rio de Janeiro, teria
pedido para que fizesse a postagem. Na verdade, a intenção era tornar a
correspondência um medicamento eficaz no combate à depressão do colega.
Apesar de alguns
colegas explicarem ao futuro novelista que a correspondência teria sido uma
simples molecagem de uma pessoa que o admirava, o “intelectual” ceplaqueano
nunca acreditou nessa versão, pois possuía todas as provas materiais enviadas
pelos dirigentes da Vênus Platinada. E ele não perdeu a esperança e continuou a
dedicar parte de suas noites às novelas que fariam retumbante sucesso.
De forma
dissimulada, (Tyrone) Perrucho sempre lhe perguntava quando suas novelas iriam
ao ar, mas elas nunca apareceram na telinha da Globo.
*Radialista,
jornalista e advogado

Comentários
Postar um comentário