E SANTINHO BAGUNÇOU O FLAMENGO DE ITABUNA

 

Santinho (de cócoras), entre Bel e Tombinho

Por Walmir Rosário*

Bons tempos aqueles em que o futebol amador de Itabuna encantava os torcedores. Para o bem da verdade, nossos jogadores, depois de investidos no “hall da fama”, passavam a outra condição, a de craques remunerados, presenteados, soa melhor. Sempre que assinavam um contrato levavam um regalo que poderia ser uma bicicleta ou até mesmo um carro.

E um desses bem acolhidos pela sorte era Santinho, batizado e registrado Gilberto Silva Moura, liderança consagrada em todos os times em que jogou, inclusive na famosa Seleção de Itabuna, a Hexacampeã Baiana. Nas quatro linhas um craque daqueles que intimidava o adversário pelo futebol que apresentava. Era ele e mais 10.

Na concentração, recebiam todas as instruções dos técnicos até o adversário engrossar o jogo, quando ele e mais uns dois ou três decidiam como o time iria jogar daí pra frente. Fora de campo – na concentração ou fora dela –, tomava conta dos jogadores mais novos e sempre era o chefão na hora de uma boa farra, evocando os resultados para si.

Santinho sentou praça e ficou famoso no Fluminense de Itabuna, ao qual indicava jogadores daqui e região. No início do ano de 1958 o craque aceitou uma rica proposta do Flamengo de Itabuna e resolve deixar o Tricolor. No time Rubro-negro não se deu bem como acreditaria, apesar do rico contrato, com luvas e salários de fazer inveja aos colegas amadores.

Ao revelar para os dirigentes do Flamengo que não se sentia à vontade no clube, foi um reboliço sem tamanho no novo time, que fez grande festa na sua contratação e esperava a retumbante estreia no Campeonato de 1958. A notícia provocou o estrondo de uma bomba na cidade! Os dirigentes do Flamengo que tinham sido contra sua contração soltavam fogo pelo nariz.

Não se falava outro assunto na cidade, tanto que na edição de 18 de abril de 1958, o Diário de Itabuna escancarou a manchete: “Santinho causa reboliço no futebol local”. E os articulistas solicitavam medidas urgentes sobre o anúncio do rompimento do contrato de Santinho com o Flamengo e sua volta ao Fluminense.

No meio futebolístico rubro-negro, um corretivo bem dado no jogador seria a única providência para reprimir a rebeldia e irresponsabilidade do jogador, pois teria ludibriado e ridicularizado os dirigentes de clubes. E, irrequietos, buscavam uma fórmula para punir o Santinho, que estaria inebriado com sua qualidade em campo, se prevalecia para bagunçar o futebol.

Anteriormente, Santinho fez o mesmo no Janízaros e solicitou seu retorno ao Fluminense e foi liberado, tanto assim que disputou a última partida do Campeonato de 1957. E o motivo dos dois retornos era simples, não teria se adaptado aos outros times, devido sua forte ligação com os dirigentes e jogadores do tricolor itabunense. Simples assim!

Embora grande parte da direção do Flamengo se mostrou contrária a sua vinda para o rubro-negro, Santinho encantou a todos ao jogar a primeira partida, um amistoso contra o Colo-Colo, de Ilhéus. Suas jogadas endiabradas faziam os torcedores e dirigentes do Flamengo vibrarem com o futebol de alto luxo jogado por Santinho, como só ele sabia.

Mas tudo virou de cabeça pra baixo após uma carta de Santinho ao presidente da Liga Itabunense de Desportos Atléticos (Lida), anunciando que não mais desejava efetivar a transferência, uma vez que sempre esteve preso ao tricolor por laços de amizade. Ao Flamengo coube emitir uma nota oficial desinteressando-se do jogador.

Santinho (na seleção), ao lado do goleiro Luiz Carlos
E a nota do Flamengo, refinada e educada, não demonstrava o temperamento colérico dos dirigentes, que por baixo dos panos teciam impropérios contra a atitude de Santinho. E a imprensa flamenguista incitava a torcida, contra o craque, alertando aos outros clubes que colocassem suas “barbas de molho”, pois eles poderiam também ser vítimas do jogador.

E a crônica futebolística não perdoou Santinho por ter conseguido voltar ao clube de origem, e por um bom tempo cobravam, diariamente, a punição para o jogador, por sua pseuda irresponsabilidade. A torcida, entretanto, queria vê-lo jogar, driblar, fazer gols com seus chutes potentes no campo da Desportiva, muitas das vezes furando as redes.

Mas Santinho tinha uma carta na manga: como ele estava à disposição da Lida, convocado pela Seleção de Itabuna para o jogo contra o Flamengo, na Festa dos Campeões, sua transferência não tinha sido efetivada pela Lida. E foi Santinho liberado sem cumprir o interstício regulamentar, de volta ao Fluminense, equipe pela qual continuou jogando por um bom tempo.

*Radialista, jornalista e advogado.


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