Por Walmir
Rosário*
Confesso que desde menino já apreciava
uma barriga volumosa, daquelas que todos os bons bebedores de cerveja costumam
exibir. Relevante, convexa, das que fazem o abdômen chegar primeiro que o
restante do distinto dono do corpo. Não é uma barriga para qualquer um, pois
essa curvatura lombar só é adquirida com o passar do tempo e dos costumes do
dito cidadão.
E para que os músculos abdominais
cheguem a esse estágio o personagem tem que passar por exercícios profundos, a
exemplo do relevante levantamento de copo, desde que sentado por longos
períodos, de preferência em mesa de bar. E é justamente nestes locais que a
curvatura lombar vai surgindo, proveniente do resultado da ingestão da cerveja,
tira-gostos dos mais diversos, preferencialmente os mais gordurosos.
Mas isso só não basta, é mais que
essencial a vontade de delineá-la ao gosto do “freguês’, melhor dizendo
proprietário, empurrando o abdômen para a frente, deixando uma protuberância
que combine com a altura e circunferência de cada um, geralmente entre as
regiões do abdômen e pélvica. Entretanto, me nego a pesquisar o motivo que
algumas pessoas condenam a aparência dessas pessoas, como se doentes fossem e
precisassem de tratamento.
Não é de hoje que esse hábito está em
voga – em todo o mundo – haja vista as fotografias que podem ser consultadas facilmente
no Google. Eu mesmo consegui a foto acima sem qualquer esforço, embora não
tenha conhecimento do profissional que a fotografou. Assim que vislumbrei a
fotografia em meu pensamento passaram duas visões: ser a publicidade de uma
obra de arte francesa, denominada de barriga de janela, ou simplesmente um
modelo fotográfico.
Confesso que desconhecia totalmente a
utilidade dessa nobre peça da serralharia francesa, providencial para o
descanso da protuberância abdominal, também conhecida como barriga de cerveja,
ou de chope. Como diz o ditado: “Caiu como uma luva”. Simplesmente permite que
o feliz proprietário de uma curvatura lombar convexa permaneça de pé – ou em pé
– como queiram, ao apreciar a paisagem externa.
Como disse anteriormente, eu sempre
apreciei esse modelo de barriga – desde menino –, chegando ao ponto de prometer
a mim mesmo que cultivaria uma e seria alimentada a cerveja. E olhe que naquela
época, aqui pelo interior baiano, a exemplo de Itabuna, a pequena variedade da
cerveja não nos permitia grandes escolhas.
Quase sempre duas marcas: Brahma e
Antarctica. Eu mesmo juro que já vi os cultivadores de barrigas se sentarem à
mesa e perguntarem ao dono ou garçom do bar, com voz empostada:
– Eu quero uma Antarctica casco preto
e bem gelada –.
E sofria ao ouvir como resposta:
– Só tem Brahma, casco verde, e não
está bem gelada –.
E o cliente, resignado, era obrigado
a se manifestar:
– Não faz mal, desce assim mesmo,
pois hoje acordei espirrando, acho que estou meio gripado –.
E não contava conversa, bebia uma
pedia outra com a mesma satisfação como se estivessem estupidamente geladas.
Quando alcancei a idade de poder sentar à mesa de um bar guardava na memória
todo o vocabulário aprendido por anos a fio. Me fazendo de homem feito, pedi
uma cerveja bem gelada e o garçom olhou de soslaio para minha cara e trouxe uma
garrafa com a cerveja quente, avisando que estava tudo naquele padrão, ou seja,
meio barro meio tijolo.
Num misto de entusiasmo e apreensão,
enchi o copo levei-o ao nariz para sentir o perfume e dei a primeira golada.
Pense num sujeito acabrunhado, desalentado e desiludido com o gosto amargo da
cerveja ainda quente: era eu. Mesmo assim tentei fazer de conta que estava tudo
bem para não levantar a suspeita do garçom que me entreolhava do outro lado do
balcão.
Aos poucos fui refazendo as energias,
acredito que pela euforia do álcool contido na cerveja, pedi a conta e deixei o
bar meio descontente, é verdade, mas tentando não dar pistas sobre meu desânimo
causado pelo amargor da cerveja. Na semana seguinte, no final do expediente na
Rádio Clube de Itabuna, fui tentar a sorte no Ita Bar, junto com os colegas.
Desta vez o amargor já não era tão presente,
acredito que neutralizado pela baixa temperatura da cerveja, resfriada no ponto
certo dos bons bebedores da “gelada”. Enfim, me reencontrei com os prazeres que
sentia em tempos idos, quando bebia apenas com os olhos e me encantava com a
protuberância do abdômen convexo dos hoje colegas de mesa de bar.
Mas como a vida nem sempre permanece
estável, hoje, após décadas cultivando a barriga de chope, sou recomendado pelo
educador físico João Rosário a dar um rumo diferente ao abdômen, tornando-o
côncavo. Como não sou afeito aos grandes contrastes vou mudando meu padrão de
beleza estética por uma protuberância menor, sem deixar de apreciar o amargor
do lúpulo, se é que ainda entra na composição da maioria das cervejas.
*Radialista, jornalista
e advogado
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