NÃO SOU O PAI DO EXISTENCIALISMO, DIZ SARTRE À RÁDIO CLUBE DE ITABUNA

Fernando Maron entrevista Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre
(Foto - Diário de Itabuna)

 Por Walmir Rosário*

Certamente o dia 20 de agosto de 1960, um sábado, entrou para a história da radiofonia de Itabuna, especialmente para a Rádio Clube de Itabuna, ao entrevistar os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir. Eles vieram a Itabuna ciceroneado pelo escritor itabunense Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gatai.

O interesse maior da ilustre comitiva era a lavoura cacaueira, como era produzido o cacau e em que condições viviam seus trabalhadores. Afinal, essa era a tônica dos romances de autoria do escritor Jorge Amado – incentivado pelo Partido Comunista – e que ganhou o mundo. Na região cacaueira visitaram duas fazendas, a Progresso em Itabuna, outra menor, de Wilson Rosa, em Barro Preto. Em Ilhéus conheceram o porto antigo e o do Malhado, em construção.

Hospedados no Lord Hotel, em Itabuna, que regurgitava de intelectuais, concederam autógrafos e entrevistas para o Diário de Itabuna e Rádio Clube, ambos de Ottoni Silva e Zildo Guimarães. Raras vezes Ilhéus e Itabuna tiveram a oportunidade de registrar acontecimento de significativa importância, com duas personalidades da filosofia – Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir – e Jorge Amado, da literatura.

Para entrevistar as personalidades francesas a Rádio Clube se valeu do amigo e advogado Fernando Maron, que dominava o idioma dos filósofos. De pronto compareceu Simone de Beauvoir, que teceu impressões sobre o que tinha observado nos oito dias de Brasil. Ela achava o país interessante por causa do esforço de desenvolvimento, além de ser belo e fascinante.

Simone, a autora do “Segundo Sexo”, confessou conhecer a região por meio dos livros de Jorge Amado, daí ter uma ideia da região cacaueira e estavam interessados em poder apreciar de perto as plantações de cacau. Na sua visão era uma terra em desenvolvimento, numa projeção de velhas tradições, de uma velha cultura, mas visando métodos muito mais modernos, o que considerou interessante.

Assim que apareceu para a entrevista, Jean-Paul Sartre impressionou Fernando Maron, o entrevistador. Para ele o filósofo era de baixa estatura, olhar do tipo Jânio Quadros, porém mais interessante, mais firme, mais profundo e repousante, como a espelhar um misto de bondade, saber e autodeterminação. Sartre, em sua quase humildade, dá-nos a impressão de um tímido. Mas essa falsa impressão, logo se anula. “Não diminui, não prejudica ou sequer lhe afeta a marcante personalidade”, descreveu.

E continua Fernando Maron a descrever o famoso representante do pensamento existencialista como de uma simplicidade cativante. “Como todo o verdadeiro sábio, parece-nos não ter a preocupação estudada e artificial de impressionar. Jean-Paul Sartre parece dizer-nos eu sou como sou”. E como não poderia deixar de ser, Maron questiona o motivo da vinda à região.

Sartre disse que sempre foi impressionado pelo o Brasil, por ser o mais importante da América do Sul e o mais variado, com problemas mais complexos. Para ele o país é um verdadeiro mundo em comparação com os vizinhos, e são essas contradições que fazem do Brasil um país tão cativante, e a região cacaueira é um exemplo, e aqui confirmou as conversas que sempre tinha com Jorge Amado.

Ao analisar o homem propriamente brasileiro, disse que lhe parecia haver uma espécie de acordo imediato entre brasileiros e franceses, afinidades, ou identidade de pontos de vista. “Não quero dizer que sejamos sempre da mesma opinião, e sim que estamos em pé de igualdade”. Em relação a Cuba disse ter a impressão que os problemas são diferentes do Brasil, embora sejam urgentes, e que a revolução cubana resolveu perfeitamente.

A impressão de Fernando Maron é que ele não gostava de ser perguntado sobre o Existencialismo, principalmente quando era citado como o criador, pai da doutrina, embora admita ter sido um propulsor, quiçá um inovador. E a pergunta foi emendada pela professora Litza Câmera, sobre o pensamento e quanto ao futuro do Existencialismo.

Primeiramente, disse Sartre, é preciso que se diga de uma vez por todas: sou um entre os filósofos da Existência. A filosofia da Existência data de 150 anos (hoje 216 anos) e foi Kirkegaard quem primeiro tratou do problema da Existência, e desde então houve alemão como Jaspers; franceses a exemplo de Gabriel Marcel; houve Heidegger, um mundo de gente.

Sartre diz que quando vê o desenvolvimento do Existencialismo não pode considerar tal fato como sendo alguma coisa que tenha vindo dos livros que escreveu, mas simplesmente como um grande fenômeno social. Posso dizer que Jaspers é um existencialista cristão e tem algo de religioso; eu sou um existencialista identificado pela doutrina marxista, com visões diferentes.

*Radialista, jornalista e advogado.

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