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| Prateleira com garrafas de cachaça antiga (criada por IA) |
Pra
começo de conversa peço perdão caso – mesmo sem ter a intenção – cometa algum
deslize com alguém nessa crônica. Recomendo que não se sinta ofendido, pois não
tenho a intenção de machucar ou magoar nenhum dos leitores. O que trarei a
seguir é uma simples análise, com conceitos nada científicos e que valem somente
para mim.
Atualmente
está muito em voga analisar o comportamento das pessoas e classificá-los a
torto e a direito. Não, esse não será o método que utilizarei. Falarei dos
acumuladores, aqueles que mantêm objetos por longos anos, às vezes
transformando-os em verdadeiras peças de museu. Outros gostam de acumular
dinheiro, bebidas, bicicletas, carros e por aí vai...
Lembro-me
daquelas imensas bibliotecas que víamos nas casas de pessoas abastadas, com
coleções imensas, famosas e caras, guardadas nas estantes da sala de estar, sem
qualquer utilidade. Sim, não eram, sequer, objetos de consultas, e por alguns
motivos: a falta de intimidade de seus donos com a leitura, bem como para não
gastar ou rasgar suas páginas.
E
esses “elefantes brancos” permaneciam incólumes até o desaparecimento dos seus
proprietários, verdadeiros acumuladores da cultura, que se tornavam inúteis para
o resto da vida. O destino era acabar num sebo, ou afins. Confesso que era – e ainda
sou, hoje com moderação – um leitor voraz e comprador de livro, que os leio.
Sempre doei a bibliotecas de bairros, amigos e que tais, que pelas minhas contas
passaram de 12 mil exemplares, para que não perdessem a utilidade.
De
vez em quando lemos notícias nos meios de comunicação de incêndios em casas
desses acumuladores, que são classificados como portadores de transtornos e
distúrbios dos mais variados. Se já estiver com a tal da “melhor idade, então,
passa a receber os mais distintos adjetivos, e passam a serem consideradas
pessoas, no mínimo, ansiosas”.
Dizem
os estudiosos que essas pessoas se isolam e a preocupação se dirige apenas para
sua interminável coleção de inutilidades, desprezando os amigos, as rodas de
bate-papo e os jogos nas praças perto de casa. E esse material acumulado se
transforma no seu castelo encantado, seu motivo de vida, e totalmente alheio à
sociedade em sua volta.
Soube
recentemente que existem hoje profissionais voltados para atender essas pessoas
com transtornos obsessivo-compulsivo, chamados de personal organizer, nem
sempre aceito pelos acumuladores. Algumas dessas pessoas acumulam por obsessão,
enquanto outras por bel-prazer, diletantismo, preservação de objetos antigos,
históricos, daí ser conveniente não tratá-los como gatos de um mesmo balaio.
Atualmente,
com a tecnologia da informática os acumuladores de documentos e imagens têm à
disposição a comodidade de guardar suas preciosidades nas nuvens, com a
praticidade de consultá-los a qualquer hora, apresentando aos amigos e
congêneres num simples aparelho celular. Na minha adolescência amigos possuíam coleções
de selos nacionais e internacionais, cujos valores em moeda corrente valiam
fortunas. Não sei como anda o mercado no momento.
Se
para uns esses colecionadores – ou acumuladores, numa linguagem jocosa – são
vistos como problemáticos, para outra banda são sempre lembrados e endeusados
quando colégios e outras instituições promovem gincanas. Imaginem a direção
desse tipo de evento solicitar, em tempo real um ingresso da final da Copa do
Mundo de 1958..., quiçá uma foto da apresentação do “rei Roberto Carlos” no
estádio de Itabuna no início da década de 1970..., é pule de dez.
Acumular
tem suas vantagens de preservar a memória de determinada civilização, de forma
organizada e cercada das garantias de uma guarda segura, como existiam nos
museus, esses mantidos geralmente por entidades governamentais. Nem essa
modalidade possuem essas tais garantias nos dias de hoje, tendo em vistas os
magros recursos disponibilizados nos deficitários orçamentos, e muitos se
estragam ou desaparecem.
Acumulo
em minha memória a imagem que ao entrar em qualquer estabelecimento comercial
lá pelas décadas de 1950, 60 e 70, via pendurados na parede quadros com dois
personagens, um maltrapilho, onde se lia: “Eu vendi fiado”; e outro bem
vestido, fumando um rico charuto, apresentando a frase: “Eu vendi a dinheiro”.
No
caso acima, seria o acumulador de dinheiro, personagem não bem visto,
capitalista perverso, dizem. Mas nesse caso existem dois grupos distintos: o
que acumula, melhor dizendo, poupa de forma consciente; e o acumulador patológico,
o dos transtornos, que guarda apenas pelo prazer e chamado de ranzinza por não
gastar. Um Tio Patinhas pintado com traços malfeitos.
E
para finalizar devo contar que já vi muitos guardadores de bebidas, vinhos
caros, cachaças famosas, cheias de teia-de aranhas, cortiças quebradiças e que
deixam exalar o aroma da cana destilada. Não aprovo essa ideia, por acreditar
que foram fabricadas para atender os mais exigentes paladares. Imaginem se uma
prateleira quebra e o estoque vai ao chão! Perde toda a sua utilidade.
Voltando
à acumulação dos livros, verifiquei que já está passando dos 300 exemplares...
Como não tenha a capacidade de análise, façam isso por mim.
*Radialista,
jornalista e advogado.

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