O CRIATIVO FRANGO DE BICICLETA DE ELIÉS HAUN

 

A bicicleta que transportava o frango do
primeiro delivery de Itabuna (arquivo R. Haun)

Por Walmir Rosário*

Sempre que me vem à mente algumas lembranças de anos passados faço questão de socializá-las com os amigos de priscas eras e os mais novos, para que tenham a ideia do mundo em que vivíamos. Muitas das histórias podem até parecer absurdos para os de hoje, mas considero apenas retratos em P&B da realidade da época, distintos da realidade atual.

Não vivíamos no mundo globalizado de hoje, mas em cada uma de nossas freguesias a vida corria dentro da normalidade, com suas dificuldades de informação, bem diferente de hoje. Sabíamos o que acontecia no mundo – com certa demora – caso a notícia fosse acompanhada de imagens (fotos e filmes), ou praticamente na mesma hora, com a instantaneidade do rádio.

A Itabuna de então era uma cidade ímpar, ao mesmo tempo em que participávamos de um lançamento nacional de um produto, não possuíamos um supermercado. Se quiséssemos comprar um alimento tínhamos que ir à feira ou armazéns. Carnes, então era difícil, penduradas nos açougues, frangos abatidos no dia anterior, quando encontrávamos. Um sufoco!

Eu mesmo sou testemunha ocular de um fato acontecido que quase inviabilizava um almoço contratado no restaurante de Pedro Ribeiro (Pedrão), no Alto Beco do Fuxico. Um dos seus mais assíduos e pródigos clientes pretendia comer a famosa galinha a molho pardo de Pedrão com amigos mais chegados. O problema é que o pedido foi feito em cima da hora e Pedrão não conseguiu encontrar frango abatido na cidade. Resultado, Pedrão foi obrigado a sacrificar sua estimada coruja para satisfazer o cliente. Uma lástima!

Mas as emissoras de rádio deitavam e rolavam como o meio de comunicação preferido da população, pois geralmente se apoiavam no tripé: música, esporte e notícia. O imaginário sobre os acontecimentos ficava por conta da cabeça de cada um, a depender de quem passava a mensagem, os grandes apresentadores e locutores de notícias, verdadeiros artistas.

Na pacata Itabuna de 1965 não era diferente. As emissoras de rádio de Itabuna tinham a ousadia em disputar a audiência com as emissoras de Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro. Na Rádio Clube de Itabuna, de prefixo ZYN-28, além de um cast notável, possuía equipamentos para gravar jingles em 45 e 78 rotações, evitando que os comerciais fossem gravados em Salvador ou outras praças, aumentando os custos de produção.

E o diretor comercial da Rádio Clube, o jornalista e radialista Cristóvão Colombo Crispim de Carvalho, também conhecido como CCCC, era o encarregado dos contatos, contratos, produção de textos e escolha das vozes, além da prensagem dos discos de acetato. E somente a Clube possuía um equipamento para produzir esses “discos de comerciais”.

A granja de Eliés que ficou famosa pela entrega rápida
Certo dia aparece na Rádio Clube o “gringo árabe” Eliés Haun, com a proposta de revolucionar o comércio de Itabuna, com um serviço prático e inusitado, que ganharia todas as atenções e dominaria a venda de frangos abatidos na cidade. E Eliés, como um homem de comunicação, articulista com artigos publicados em jornais, tinha consciência que o rádio seria essencial ao seu empreendimento, o primeiro delivery (nome desconhecido) de Itabuna.

Escreveu um texto publicitário e foi apresentar ao seu amigo Crispim para contratar a produção completa de um comercial à altura. Assim que leu, o radialista lhe disse. “Eliés, seu texto está muito bom, mas aqui é rádio e a mensagem é diferente; primeiro vamos fazer um teaser (uma amostra curta) para despertar a curiosidade, e depois um jingle para fazer movimentar seu negócio”.

E o teaser “Frango de bicicleta!” abriu a campanha, provocando a imaginação dos itabunense, atônitos para saber do que se tratava. Afinal, quem não queria ver um frango montando uma bicicleta? A primeira peça publicitária provocou um auê na cidade. Uma semana depois entra a segunda peça, um jingle curto: “Coisa do outro mundo, frango de bicicleta! Disque 6272 e em minutos o frango chega em sua casa”, seguido do endereço: Granja Cariassu, avenida Tosta Filho, 697”.

Pronto, estava inaugurado o primeiro delivery de Itabuna, com muito sucesso de vendas, apesar da simplicidade do empreendimento. Bastou ampliar a granja e o abatedouro, para atender bem a nova demanda. A entrega, o carro-chefe do negócio, era uma simples bicicleta do tipo cargo, com um quadro de bagagem na dianteira, no qual foi adicionado um caixote de madeira para acondicionar os frangos abatidos.

E por onde a bicicleta passava era aclamada pela população, graças ao forte poder de apelo da publicidade – curta e eficaz – chamando a atenção da população Itabunense. Com o passar do tempo foi diminuída a intensidade da divulgação, pois o desconhecido delivery ganhou clientes e fãs com o criativo negócio de Eliés Haun de montar o frango na bicicleta.

A inventividade de Eliés Haun contribuiu – decisivamente – para a implantação de novos negócios em Itabuna, cujos clientes passaram a gozar de novos e criativos serviços, proporcionando comodidade e conveniência. Depois do “frango de bicicleta” de Eliés, Itabuna nunca mais foi a mesma, a começar pela implantação de supermercados, como nos grandes centros.

*Radialista, jornalista e advogado.


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