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Prédio e equipe do lendário Baby Beef de Itabuna |
Por
Walmir
Rosário*
Eu sempre utilizo
um ditado como modo de conduta: “Não vou a tudo em que sou convidado, muito
menos onde sequer fui lembrado”. Por todo esse tempo esse costume não me causou
qualquer arrependimento ou dissabor. Sei que não sou um bom conselheiro, pois
me faltam predicados, embora não me furte a dar algumas dicas sobre os riscos
que podem acometer aos penetras.
Outro
comportamento que faz bem a qualquer desprevenido é não aparecer em locais nos
quais seus bolsos são desqualificados, monetariamente. Em tempos passados, o
velho talão de cheque poderia quebrar um galho no acerto de contas, embora nos
dias seguintes fosse ele convidado a comparecer ao banco com os recursos para o
competente depósito e cobrir o cheque voador. Hoje não mais, o cartão de
crédito é rejeitado na hora e o Pix nem por sonho.
Durante toda
a minha vida convivi com amigos de todos os comportamentos. Uns mais afoitos e
de boa lábia, cujo poder de convencimento quebrava o mau humor do dono do
estabelecimento e o permitia assinar um vale de quitação duvidosa. Um deles,
após muitos goles de cachaça e cerveja, não contou conversa e puxou do bolso um
talão de cheque e o preencheu com o valor da conta da mesa. Só que era a folha
da requisição do talão de cheques, conforme ficou sabendo na segunda-feira, com
a visita do dono do bar.
Desses
casos coleciono algumas dúzias, mas um deles me chamou a atenção, e dia desses,
ainda me fez lembrá-lo o colega causídico Antônio Apóstolo. Éramos estudantes
de Direito, nos velhos tempos da Fespi, depois Universidade Estadual de Santa
Cruz (Uesc). Estávamos no saudoso Baby Beef, disparado o melhor restaurante que
Itabuna “já teve”.
Numa mesa,
dois de nossos professores da faculdade, um deles recém-conhecido de dois
colegas do curso. Ambos de uma pequena cidade do Recôncavo, e entraram no Baby
Beef apenas para conhecer o restaurante, conceituado pelo serviço, comidas e
bebidas. O certo é que ficaram embasbacados e começaram a circular entre as
mesas, verificando as iguarias.
Ao se depararem
com os ilustres professores, na maior inocência resolveram cumprimentá-los. Ao
serem reconhecidos, os mestres responderam às saudações e um pequeno bate-papo
foi estabelecido. Por educação, acredito, foram convidados a sentar-se à mesa e
os visitantes não fizeram cerimônia. O garçom logo providenciou duas taças e
pratos para o couvert.
Durante um
bom tempo da noite de sexta-feira o quarteto conversou sobre a qualidade do
vinho Liebfraumilch (garrafa azul), da comida, e da qualidade dos restaurantes
de Itabuna, da faculdade e do que mais lhes apeteciam. E num restaurante da
categoria do Baby Beef os solícitos maitre e garçons atentos à mesa, a
abasteciam com muita frequência. Comeram um Peixe à Belle Meunière, que
consideraram comida dos deuses.
Um pouco
depois da meia-noite, bem satisfeitos, os professores elogiam a bela noitada
num restaurante de primeira linha e anunciam que iriam embora, pois naquele
sábado teriam que ministrar aulas logo nos primeiros horários. Pedem a conta e
a conferem assim que chega. Num simples cálculo promovem a divisão equitativa,
ou seja, fracionam o total entre os quatros participantes.
Os dois
convidados começaram a gaguejar e suar frio, pedindo desculpas por se
encontrarem desprevenidos de recursos, em dinheiro ou outro meio de pagamento,
pois tinham ido ao Baby Beef apenas para conhecer o conceituado ambiente. Os professores
não contaram conversa, pagaram as suas partes e avisaram aos dois alunos que
resolvessem o problema com o maitre e partiram.
Atônitos, os
dois se dirigiram ao balcão e quase em prantos relataram que não eram de
Itabuna, embora gente de bem, estudantes de direito na Fespi, filhos de boas
famílias e o único recurso para solucionar o problema seria fazer uma ligação
telefônica para a família de um deles. Era a época do telefone fixo, e àquela
hora ligaram para o pai, relatando o ocorrido, sendo liberados após a garantia
de uma ordem de pagamento urgente na próxima segunda-feira.
No dia
seguinte, na primeira aula, às 7h30min, o professor de Direito Civil, o então
juiz do Trabalho Érito Machado (depois desembargador presidente do TRT-5),
escreveu no quadro os temas da aula, virou-se para os alunos e disse: “Aqui tem
uns caipiras que chegaram ao Baby Beef, em Itabuna, sem dinheiro para pagar a conta,
como se estivessem na pensão de sua cidadezinha”.
Em seguida,
deu início à aula, criando uma apreensão entre os alunos, ávidos em saber quais
seriam os personagens descritos pelo mestre. Depois desta lição, nunca mais
saíram desprevenidos, financeiramente, para uma noitada, mesmo de
reconhecimento.
*Radialista,
jornalista e advogado.
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